terça-feira, 2 de abril de 2013

A confissão da leoa


"Ninguém mais do que eu amava as palavras. Ao mesmo tempo, porém, eu tinha medo da escrita, tinha medo de ser outra e, depois, não caber mais em mim."

"Escrever não é como caçar. É preciso muito mais coragem. Abrir o peito assim, expor-me sem arma, ser defesa..."

"Preferir não era um verbo feito para ela. Quem nunca aprendeu a querer como pode preferir?"

"Quero, sim, ausentar-me de mim. Dormir para não existir."

"Só as pequenas loucuras nos podem salvar da grande loucura.

"Quanto mais vazia a vida, mais ela é habitada por aqueles que já foram: os exilados, os loucos, os falecidos."

"Tem medo de si mesmo. Tem medo de ser caçado pelo animal que mora dentro de si."

"Do caçador desconfie, admitiu. Não porque o caçador seja mentiroso. Mas porque a caça tem a verdade de uma dança: corpos fugindo da sua própria realidade."

(A confissão da leoa - Mia Couto)