domingo, 9 de agosto de 2015

Ser Pai

Pai é aquele homem que está desde sempre nas nossas melhores lembranças.
Aquele que quando a filha era pequenina e acordava insegura devido algum sonho perturbador, no escuro das altas horas, chamava, "Papai! Papai!", e logo ouvia uma voz tranquilizadora que vinha do quarto vizinho - como se ficasse de vigília aguardando aquele momento -, "venha pra cá!". Descendo imediatamente da cama, ela chegava em dois tempos no quarto contíguo, onde tateando, encontrava uma rede armada e vazia a sua espera - ele gostava de dormir de rede, mas quando sua princesinha precisava de socorro ele levantava e deitava na cama ao lado de sua amada, que dormia despreocupada, pois à noite, tinha quem zelasse por todos de casa, só voltaria a assumir o controle do lar quando o chefe da família saísse ao trabalho -, mal a pequena deitava, a rede começava a balançar para lá e para cá. Mas o susto de um sonho desagradável não permitia que o sono voltasse assim tão fácil e, quando o pai parava o balanço, julgando ter conseguido imobilizá-la no sono, e poder voltar a dormir, a pequena se mexia para que ele ouvisse o som de seu corpo roçando na rede, como dizendo "ainda não dormi. Por favor, me embale!". E ficavam a repetir essa cena até o sono dominá-la. 
Pela manhã, quer dormisse na sua cama ou na rede do pai, ela acordava com massagem nas pernas e nos pés, e à sua frente um belo sorriso no rosto do homem que era puro amor. Como não acordar de bom humor! E era sempre ele quem a levava para escovar os dentes, e a entregava a escova já com creme dental. Enquanto ela escovava ele a preparava seu café da manhã.
Na adolescência, havia dias em que ela sentia desejo de comer algo diferente, mas não sabia ao certo o que era, então o pai saia, e quando voltava trazia algo que saciava o seu desejo. Era como se ele adivinhasse os seus mais profundos pensamentos, que ela própria ignorava conhecer.
São tantas histórias de amor, carinho e, exemplos de caráter, bons costumes...
É isto! Meu pai foi esse ser protetor, do bem, do amor. Mas que tinha pulso firme e fazia-se respeitar. Quem sabe ele tenha me mimado tanto por eu ter sido a caçula de 12 filhos (apesar de um ter falecido bebê), ou, por eu ter nascido quando ele estava completando 50 anos, o que talvez tenha lhe feito refletir que não vale a pena vivermos com tanto rigor, tanta imposição, que o bom exemplo associado ao amor, a atenção e ao limite dão mais resultados do que as surras. 
Dois meses antes de eu fazer 18 anos a vida deixou meu pai. Mas ele já havia plantado em mim seus melhores sentimentos e exemplos que eu trago até hoje.
BeatrizNapoleão